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Retrospectiva 2013


Todo ano é lançado uma enxurrada de filmes, começamos o ano sendo apresentados aos indicados/vencedores do Oscar , então vemos as continuações das franquias e outros tantos  títulos inéditos.  Enfim, são tantos filmes que fica difícil citar todos e mais difícil ainda fazer uma lista, por exemplo, com os 10 melhores, até porque não me impressionei com tantos filmes assim. Depois de 'Django Livre', apenas 3 outros filmes me cativaram e ganharam um espaço na minha coleção são eles:The Bling Ring – A Gangue de Hollywood, Spring Breakers – Garotas Perigosas e Frances Ha. Escolhi os três filmes porque retratam muito bem  diferentes fases da juventude contemporânea e as questões que enfrentamos em cada uma delas. 




The Bling Ring – A Gangue de Hollywood


Cena do filme "The Bling Ring - A Gangue de Hollywood"
Foto: Divulgação


  Sofia Coppola se baseou em um artigo intitulado "Os Suspeitos Usavam Louboutin" escrito por Nancy Jo Sales e publicado na revista Vanity Far em 2010. Nancy por sua vez se baseou na história real de jovens de classe média que roubaram entre agosto de 2008 e outubro de 2009 o equivalente a 3 milhões de dólares em joias, roupas e artigos de arte de celebridades como Paris Hilton, Lindsay Lohan, Megan Fox,  Rachel Bilson e Orlando Bloom.

  Sofia Coppola recebeu duras críticas pelo filme, que dizem ser contido e cheio de pudor.  O filme é uma espécie de falso documentário e com uma montagem que lembra programas de fofoca e reality shows ela simplesmente observa seus personagens e suas ações fazendo um estudo de comportamento de jovens sem muitas perspectivas e alienados, obcecados por celebridades e seu estilo de vida.  Jovens que querem se tornar celebridades para aqueles que o rodeiam, e não se importam se isso vai acontecer por bem ou por mal.

   No filme são abordadas questões como o estilo de vida das celebridades, cheio de ostentação inclusive da própria imagem, como Paris Hilton que emprestou sua casa para as filmagens. É possível ver seu rosto estampado em vários cantos da casa até nas almofadas. O papel exercido pela imprensa quanto à relação público/ privado.  Enquanto algumas celebridades demostram certo descaso com sua privacidade outras claramente parecem gostar quando sua intimidade é invadida pelas câmeras, quanto mais flashes, melhor.  

Outro aspecto abordado é em relação à influência das celebridades sobre o público, como Lindsay Lohan que também condenada por roubo dividiu cela com uma das garotas da gangue, presa pelo mesmo motivo.

Com uma fotografia naturalista e estourada com cores como o branco, prata e o dourado só refletem ainda mais o vazio dos personagens que mesmo tendo uma vida privilegiada desejam ter o estilo de vida de outra pessoa. Coppola também aborda a fragilidade das relações humanas, em que amigos traem melhores amigos, os pais responsáveis pela educação de seus filhos são quase fantasmas e quando aparecem rejeitam a difícil responsabilidade de educar e  se baseiam em livros de auto ajuda para transmitir aos filhos os  valores que consideram fundamentais.  

  Coppola faz um estudo antropológico do nosso tempo, não faz nenhuma crítica diretamente e não apresenta nenhuma conclusão, mas nos coloca diante de questões a serem respondidas como Quem são as verdadeiras vítimas? Seriam esses jovens inconsequentes apenas um produto do meio que os cerca? 







Spring Breakers - Garotas Perigosas


Cena do filme "Spring Breakers - Garotas Perigosas"
Foto: Divulgação



  Na trama, quatro amigas querem aproveitar o recesso escolar conhecido com Spring Breakers (para nós seria como a semana do saco cheio) em uma praia na Flórida. Sem dinheiro suficiente para a viagem decidem assaltar um restaurante. Já na Flórida, as garotas são presas durante uma festa acusadas por porte de drogas, mais se livram da prisão ao ter a fiança paga pelo traficante/rapper Alien.  Com um ótimo trabalho de montagem, a repetição de cenas hora com saltos para o futuro, hora para o passado sempre acompanhado da música constante transforma o filme em um remix, como em uma música do Dj Skrillex que não por acaso, faz parte da trilha sonora, que também tem músicas do rapper Gucci Mane que no filme  interpreta o traficante inimigo de Alien (James Franco).

  O uso das cores em neon em contraste com as cores sóbrias do início do filme e a frase Sprink Breakers repetida quase como um mantra nos transporta para um universo onírico, inconsequente, marcado pelo excesso, onde todas as inibições são esquecidas e personalidades antes contidas se desabrocham voltando ao estado de selvageria humana. A escolha das meninas da Disney, Selena Gomez e Vanessa Hudgens me parece um tanto proposital, assim como as jovens atrizes que procuram deixar pra trás suas imagens de adolescentes ficha limpa para parecerem mais adultas diante do público e dos estúdios, korine nos mostra que a juventude não está mais interessada em histórias, querem viver experiências e ser preso por porte de drogas é quase um rito de passagem diante da distorção do sonho americano, ou mais amplamente do sonho de Spring Breakers Forever .

  Outro elemento que chama a atenção no longa é o uso de elementos pop, como o da canção da garota problema Britney Spears, proporcionando uma das melhores cenas do longa.  Outra cena que merece destaque é protagonizada por James Franco que ficou a vontade na pele do assustador e imaturo Alien, tão a vontade que faz sexo oral em uma arma.

  Assim como Coppola, Norman Korine recebeu muitas críticas por Spring Breakers, talvez porque ao ver as garotas da Disney no elenco as pessoas tivessem esperando um musical adolescente e tenham se assustado ao ver o próprio reflexo no espelho que Korine coloca a nossa frente. Um espelho que reflete o comportamento inconsequente de uma juventude vazia, que busca exaustivamente pelo prazer. 





Frances Ha 


Cena do filme "Frances Ha" | Foto: Divulgação



  Frances Halladay chega a Nova York com o sonho de ser bailarina de uma companhia de balé contemporâneo e sair em turnê pelo país. O problema é que ela não é tão talentosa quanto gostaria e isso a deixa entediada. Ela tem 27 anos, já terminou a faculdade e saiu da casa dos pais mais ainda não conseguiu se estabelecer profissionalmente nem amorosamente, realidade de muitos jovens. Se não bastasse Frances está naquele momento da vida (que insiste em durar para sempre) que não sabemos que rumo tomar, enfrenta problemas financeiros depois que sua melhor amiga se muda do apartamento que dividiam juntas e ainda em meio a tudo isso tem de lidar com as crises existenciais inerente a qualquer idade.  Mas Frances dança conforme a música e não perde o otimismo nem seu bom humor ácido.

  Com direção de Noah Baumbach e produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira (RT Features) Frances Ha é todo em preto e branco o que pode causar certo estranhamento no início do filme, mas com o carisma da protagonista, e a trilha sonora com nomes como Mozart, Bach, George Deleure (um dos maiores compositores da Nouvelle Vague), Rolling Stones, Harry Nilson e David Bowie,  a fotografia preta e branco se torna mais um detalhe que deixa o filme adorável. Greta Gerwing com sua belíssima atuação se torna a alma do filme e traz uma certa liberdade artística ao colocar seus pais verdadeiros em cena, isso se deve ao fato dela ser co-roteirista do longa. 

   Tudo bem que o filme faz referencias a Manhattan de Woody Allen e a Nouvelle Vague de Truffaut e Godard, ou ainda a séries de tv como Girls, mas Frances Ha é muito mais do que uma referencia.  É um filme sobre a juventude que não amadureceu completamente, que não se encaixa nos padrões e assim como sua protagonista vai de um lugar ao outro, não apenas por não conseguir pagar o aluguel mas porque ainda não encontraram seu lugar no mundo ou porque não cabem em qualquer lugar e tem que decidir entre o que querem e o que podem fazer. É um filme sobre o abandono, crescimento e realização.





Texto: Núbia Almeida

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